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Então chora menina, chora o que te aperta no peito e machuca, solte-se dessa prisão em que você mesma é a vítima e a culpada, liberte-se do que te prende e do que te aperta à alma. Doce mocinha cantava com todo amor do mundo e chuviscava alegria no jardim ao lado da casa, sorria feito margarida tomando sol, cantava feito rouxinol, uma donzela encantadora, dos lábios enfeitiçados de tom roseado, madeixas encaracoladas ao derredor do pescoço, doces caracóis que caíam sob os ombros, as pontas douradas moldavam os braços na mesma direção, sentada no balanço ventilava as pernas lisas livres de qualquer pano que a envolvia, estava no seu melhor estado, rutilava feito purpurina de carnaval, um brilho vindo do interior, guardado e reservado no fundo do coração que transgredia até o limite do céu, lançava brilhos por inteiro ao horizonte feito raio solar. Alma inquieta e tagarela, a moça não tinha limites, corria e fazia tuas capitulices como de costume, durante tuas conversas amargamente adocicadas soltava alguns doces gracejos que roubava uns sorrisos alheios, esta moça de tão sorridente causava espantos quando lhe contava do teu pretérito doloroso, profanava de forma morosa, repelia as palavras presas na garganta quase como uma música suave e encantadora. Ela esta aí, dizendo adeus mais uma vez a tudo que ama, beijando o presente que se tornou o passado. Moça, pode ir fundo, com o pé direito e o coração machucado, vá da tua maneira e não perca tua ternura, deixe teu riso mais bonito estampado no rosto, guarda o beijo de amor escondido no canto dos teu lábios, um beijo no lado direito quase imperceptível, não chores tanto, seja forte mais uma vez. Layara Sarti - Amor—em—versos

Dois dias para o meu casamento e eu ali, num país distante, com um cara desconhecido, nua em uma cama de motel. Será loucura ou aventura? Quarto número 425, o conheci na praia. Nem sei por qual motivo eu estava lá sozinha, sendo que tenho compromisso com alguém. Ele estava sobre mim, beijando-me e eu não sentia mais prazer. Pára- dizia dentro de mim, mas da boca nada saía. Tentava empurrá-lo para longe do meu corpo, mas cadê força que não vinha. Finalmente acabou. O cansaço venceu nós dois. Ele virou pro lado e dormiu. Devo acordá-lo e despedir-me? -pensava comigo mesma. Dele nada sabia, a não ser que já foi casado. Droga, transei com um cara que pode ter uma família? 48 horas pra cerimônia e eu ainda estava ali imóvel. 1, 2 , 3 horas da manhã e o sono não vinha. A consciência cada vez mais pesada. E a camisinha? Droga duas vezes! Nos esquecemos. Daí foi de mais para mim. Misturou preocupação e ansiedade e não pude me segurar. Levantei rápida da cama, a vista embaralhou-se e cai. Por um momento achei que tinha acordado o desconhecido, mas ele roncava alto de mais e certifiquei-me que estava apagado. Levantei do chão com cuidado, vesti minhas roupas, saí do quarto sem ao menos olhar para trás. A recepcionista cochilava por cima do balcão e não ouviu meus passos pelo saguão -eu suponho. Madrugada fria demais para uma noite quente como aquela. As estralas ainda estavam no céu e dava pra sentir de longe o cheiro de frituras. Ah Vegas, como você proporciona fantasias. Meu Opala SS estava no estacionamento e no estofamento haviam migalhas de doces e garrafas de bebida. A gasolina era pouca mas dava pra arriscar. No posto mais próximo parei e abasteci o tanque até completar, até que…droga ao cubo! Minha carteira deve ter ficado no quarto junto da minha bolsa. Sorte que ainda tinha algum dinheiro no porta luvas do meu carro. Segui viagem até amanhecer. Em muitas horas de estrada, e os quilômetros rodados não acabavam mais. Cheguei em casa, melhor dizer, na casa onde eu futuramente morarei depois de me casar -se é que isso fosse acontecer. O jardim servia de garagem para algumas viaturas policiais. Meu noivo já preocupado comigo sentava na sala dando mais um sinal para um dos comandantes até que me avistou. Correu na direção da porta. Mesmo com um sorriso estampado no rosto não pode esconder sua feição de estresse. Sua voz falhava e só conseguiu perguntar por onde estive. Mais emocionada do que esperava, respondi -voltei porque te amo. Tatiany Graziele, efêmeras.

Cheiro de batata queimada, bebidas em falta e carro quebrado. A noite que deveria ser sem erros de cálculo não poderia ficar pior. Mas aconteceu. A única roupa mais ou menos adequada estava terrivelmente amassada. E o tempo só passava. Ah quer saber? Seja como for. Vesti um pijama, joguei alguns hambúrgueres no microondas, prendi o cabelo em um coce e coloquei as latas de energético em cima da mesa. Só falta eu estar com cara amassada -pensei. A campainha tocou e eu estava ofegante de tanto correr pelas escadas pra ajeitar a sala.
-Desculpa, cheguei tarde?
-Não, por que a pergunta?
-Você tá com cara de sono e moletom de pijama.
Eu sabia, sabia que estava horrível. Devia ter passado meu vestido e feito uma maquiagem. Mas não, fui tonta e achei que ele nem notaria a falta de beleza.
-Você está linda.
Ele disse isso mesmo? Certeza que não é cego -quis perguntar. Ele tinha trago duas opções de filmes, um de comédia romântica e outro de terror, suponho. Escolhemos terror. O microondas apitou. Corri pra pegar a fast food e coloquei-a em cima da mesa na sala de TV onde estávamos. Ele reparou o cheiro de comida queimada, eu só me desculpei por ter estragado nosso jantar. Ele riu. Filme tenso aquele era. A cada surpresa, um susto. A cada grito, uma risada contagiante. E foi assim durante os 45 primeiros minutos do filme. Até que ele derramou energético em mim. Sem problemas, pensei. Estou linda molhada. Pedi que esperasse enquanto eu tomasse um banho rápido pra tirar aquela roupa molhada. Mas não conseguia parar de rir enquanto ele me zoava. Subi pro banho e demorei mais do que esperava. Desci novamente, e a sala estava quieta, tirando o barulho de serra elétrica do filme. Ele dormiu. Pelo visto, meu banho foi eterno. Sentei-me ao seu lado, encostei a cabeça em seu ombro, abaixei o volume da televisão e dormi ali mesmo, no sofá da sala. Considerando a noite, aquele momento havia superado todos os azares. Tatiany Graziele, efêmeras

Outro dia eu me olhei no espelho e fui incapaz de reconhecer o que estava refletido. Era uma garota acuada, com a tristeza cravada no olhar, olheiras inchadas denotando as noites em claro com lágrimas a derramar. Eu já não me lembro mais do sorriso que eu costumava ter no rosto o tempo inteiro. Eu nem ao menos sei como isso aconteceu. A única coisa que ainda enxergo é o poço que eu tenho me afundado, cada vez mais e mais. O porquê? O porquê é apenas algo rabiscado em minha mente, algo que não consigo enxergar com nitidez. Algo que me assusta, pois se a causa disso tudo for apenas a mim mesma? E se… E se a culpa desse vazio for precisamente das minhas escolhas mal feitas, dos meus planos que nunca se concretizam? É isso que me causa um arrepio tremendo, é isso que me traz as lágrimas durante a noite, é isso que me envolveu em um casulo de tristeza que não consigo mais sair. Sinto-me como uma lagarta que foi impedida de tornar-se uma borboleta, sinto-me como um triste ser que foi impedido de viver, de tornar-se aquilo que deveria ser. Já viu criança com medo do bicho papão? Então, eu me tornei essa criança e meu bicho papão é viver. Viver um amor que tem me matado pouco a pouco. — Mi and Tati
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